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Biofeedback do Mural Interativo Violência contra a Mulher

Biofeedback do Mural Interativo Violência contra a Mulher

Biofeedback do Mural Interativo Violência contra a Mulher

Do contexto

Baseado na indissociabilidade da tríade ensino, pesquisa e extensão, o grupo Pet Biologia da Universidade Federal de Goiás busca através de suas atividades fomentar e discutir temas que agreguem a formação profissional e humana das/os acadêmicas/os do curso de Ciências Biológicas, dentre elas o desenvolvimento de um mural interativo, o qual tem como propósito a interação com as/os discentes e as/os docentes da comunidade acadêmica. No mês de setembro, o mural interativo abordou o tema: Violência contra a mulher.

Da Execução

Escolhido o tema, as/os integrantes do grupo PETBio buscaram dados quantitativos e qualitativos sobre os diversos tipos de violência que as mulheres sofrem no país, como: taxa de feminicídio, violência obstétrica, física, verbal, psicológica, simbólica; além de outros marcadores sociais que influenciam nessa violência, como: faixa etária, identidade de gênero como no caso das travestis e mulheres transexuais, raça e etnia . Feito isso, foi produzido um mural interativo com fotos das petianas e acadêmicas convidadas do curso de Ciências Biológicas da UFG, maquiadas em simulação à violência física sofrida pelas mulheres, juntamente com dados estáticos, como o número de mortes de mulheres no país por feminicídio, número de estupros, agressões e palavras de ordem que indicam a relação de subalternidade e subjugo nas macro e micro relações ao qual as mulheres são submetidas na nossa sociedade,  além de textos informativos baseados na lei Maria da Penha (definição dos diferentes tipos de violência) e no Mapa da Violência contra a Mulher do ano de 2015 (versão mais recente). Ao mural físico foram anexados "post-its" com a finalidade de que a comunidade geral pudesse interagir deixando relatos de violências sofridas e/ou ocorridas com terceiras, críticas ou sugestões ao trabalho desenvolvido.

Da divulgação

O mural permaneceu por 19 dias na entrada do Instituto de Ciências Biológicas IV, alcançado estudantes de diversos cursos, como Agronomia, Biomedicina, Ecologia, Medicina Veterinária, além de docentes e funcionárias (os) do Instituto.  

Do objetivo da ação

Dentre os objetivos do mural destacam-se:

  • A promoção de debates que extrapolam a matriz curricular das/os acadêmicas (os), pois enquanto grupo, acreditamos que uma educação transformadora e emancipatória deve ser pautada na pluralidade de ideias, o respeito à diversidade, e maximização das potencialidades existentes nas/os sujeitas/os na busca por uma sociedade equânime.
  • Sensibilização ao tema por parte das pessoas envolvidas.
  • Interação da comunidade acadêmica com o tema, através de relatos, sugestões, criticas, entre outros que possam mostrar a importância desse debate dentro dos cursos de formação.

 

Resultados 

O mural permaneceu do dia 12 de setembro a 31 de setembro.Foram contabilizados apenas cinco relatos de agressões. Durante a execução, o mural foi remanejado inúmeras vezes pela equipe de segurança/limpeza da Universidade de forma a estar fora do alcance de potenciais participantes. Duas semanas depois de fixado, o mural sofreu retaliações como piadas e desestruturação (fotos e informes rasgados e retirados).

Abaixo os relatos anônimos obtidos pelo mural:

“Violência Moral: No ensino médio tive um professor que se achava no direito de fazer comentários sobre o meu corpo na frente da turma toda, e pelo fato de eu ser negra, dizia que se eu fosse escrava me compraria.”

“Estupro.”

“Por ser mulher, já se aproveitaram de mim dentro do ônibus a ponto de se esfregar até eu sentir seu membro. Só o fato de ser mulher tira toda autoridade de uma reclamação. O homem só parou quando outro homem chamou atenção.”

“O coleguinha de curso que adora pegar no peito da colega. Só porque ela é lésbica acha que tudo é liberado.”

“O cara que se faz de amigo para te humilhar na frente da turma e acha que é normal ou brincadeira.”

 

Discussão

De acordo com o Mapa da Violência Contra a Mulher (2015): 05 mulheres são espancadas no Brasil a cada 2 minutos; a cada 90 minutos ocorre um feminicídio; a cada 11 minutos uma mulher é estuprada; e o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Segundo o IBGE (2011), cerca de 70% das mulheres do país ainda continuam recebendo menor salário que os homens, mesmo sendo a maioria da população brasileira com cursos superiores (60% mulheres e 40% homens). Ainda é pequeno o número de mulheres a ocupar cargos importantes e de decisões no nosso país (mulheres brasileiras ocupam 9,6% do congresso nacional de acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas - ONU, do ano de 2014). Uma pesquisa realizada pela Organização não governamental "PLAN International Brazil" em 2015 com crianças de cinco estados brasileiros, mostrou que:

 Dos entrevistados, 81,4% das meninas arrumam a própria cama, atividade que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Além disso, cabe a elas cuidar dos irmãos menores (em vez de estudar) quando os pais trabalham, nas famílias com poucos recursos. Muitas chegam a abandonar a escola para assumir essas tarefas.

Uma pesquisa do DataSenado (2011) constatou que: 63% das mulheres entrevistadas responderam que, mulheres que sofrem agressão denunciam o fato na minoria das vezes; 27% afirmam que as mulheres não denunciam; e 8% que elas denunciam na maioria das vezes. Na mesma pesquisa ainda em questões de múltipla escolha, revelou que: 68% das entrevistadas afirmam que a razão que leva uma mulher a não denunciar a agressão é o medo agressor; 23% é a preocupação com a criação das/os filhas/os; 22% é a dependência financeira; para 18% é o fato de não existir punição; outros 18% é a vergonha da agressão; 12% devido ao fato de a mulher não conhecer seus direitos; e 11% por acreditar que seria a última vez.

Os dados acima mostram o quanto ainda vivemos em uma sociedade machista e misógina moldada em pilares patriarcais que reforçam uma cultura de mercantilização do corpo feminino e de subjugo/sub-representatividade das mulheres a cargos e espaços de poder, resultando no seu silenciamento, minimização de suas potencialidades e culturas de medo e morte que impedem que as mesmas, muitas vezes sejam ouvidas, vistas e construam trajetórias enquanto sujeitas de suas próprias vidas. 

É interessante ressaltar outros marcadores sociais (raça-etnia, orientação sexual, identidade de gênero, regionalidades, etc.) contribuem para o acúmulo dessas opressões e constante marginalização/subordinação das mulheres à medida que quanto mais distante de um padrão hegemônico maior o grau de violência. O Mapa da Violência Contra a Mulher (2015) mostra também que o número de agressões para mulheres brancas caiu em 9,8 % enquanto o de mulheres negras aumentou em 54,2 %. O Dossiê da Violência Contra as Mulheres mostra uma constante cultura de “estupro corretivo” contra mulheres lésbicas e culpabilização das vítimas frente a uma agressão. 

mural

 

Todos os dados acima expostos podem então explicar o pequeno relato presenciado pelo mural. Além de físico, a exposição muitas das vezes é dolorosa, falar de suas subalternidades é muito sensível, principalmente se tratando de um grupo criado historicamente para não se pronunciar e nem cobrar mudanças em uma sociedade carregada de desigualdades. Quanto aos problemas enfrentados durante o projeto, só nos resta acreditar no reforço e a comprovação mais uma vez do ideal de que muito ainda precisa ser feito para a conquista dos direitos das mulheres, a liberdade de expressão, a quebra de uma estrutura sexista/machista/racista/misógina e transfóbica e o respeito a qualquer tipo de dissidência. Finalizamos alertando o atual cenário de retrocesso em que passamos, que proíbe a introdução das questões de gênero e sexualidade nos currículos escolares e a pouca promoção de debates/ações dentro dos espaços de formação que corroboram com esta cultura de violência e inferiorização das mulheres. É necessário discutir cada vez mais temas que violam os direitos humanos, construir uma educação na base livre de estereótipos e preconceitos nos diversos espaços e camadas da sociedade e planejar ações embasadas na horizontalidade e emancipação/empoderamento das mulheres, frente a uma sociedade sistematicamente violenta. 

 

Links para consulta

http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/sobre-as-violencias-contra-a-mulher/

https://plan-international.org/brazil

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

 

Agradecimentos

O grupo PETBio gostaria de agradecer a todas/os que ajudaram nesse projeto e principalmente aquelas que romperam as barreiras do silêncio e compartilharam conosco suas dores. A [r]existência de todas vocês é muito importante para a sociedade. Seguimos em luta por uma sociedade equânime e pautada na exclusão das desigualdades sociais.  

 “É preciso ter coragem para ser mulher nesse mundo, para viver como uma e para escrever sobre elas.” thinkolga.com (Juliana de Faria).

 

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